Porque há vida para além da paisagem... para além da rotina diária, do mundo das notícias e do ecrã. Reflexões daqui, dali de acolá ... e de cá de dentro, que é onde a nossa paisagem se molda e gera paz.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Somos Feira


Decorre até domingo a 52ª Feira Nacional da Agricultura em Santarém.
Durante muitos anos me divorciei desta feira. Mas dela tenho recordações de criança, cheiro a frango assado, horas ao sol a percorrer a exposição de tractores e máquinas agrícolas, necessárias ao trabalho do meu pai, o torrão de Alicante que a minha madrinha inevitavelmente comprava ou, se não ia connosco, lhe trazíamos por sabermos que adorava.
Durante muitos anos, ou ia de raspão, ou não ia, por lhe perder o sentido, a importância.
Porém, desde há alguns anos a esta parte, e com a importância renovada numa agricultura nacional, e nos  produtos portugueses que aprendemos a revalorizar, a feira voltou a chamar gentes, voltou a não ser só um passatempo em dias de calor tímido, com largadas à mistura, não fosse estarmos na capital do Ribatejo. 
E assim, voltei a revisitá-la, com outros olhos, de quem vê na agricultura um potencial de futuro e onde, com tempo, disposição e companhia certas ,  acabamos por aprender muito e a dar valor às experiências de quem tirou estas duas semanas para promover o que é seu.
Gostamos assim, de visitar os stands com tempo, para perceber modos de fabrico, estratégias de comercialização ( toda a gente quer fugir da grande distribuição, onde não se sente valorizado!), histórias de família por trás do queijo que nos chega com um cheiro e sabores irresistíveis, acompanhado por vinhos que, este ano, por influência do tempo de verdadeiro Verão, os colocou a temperaturas incorrectas para a sua correcta apreciação. Aqueles produtos da nossa terra mereciam que respeitassem o seu valor e lhe dessem as condições necessárias para que pudessem brilhar.
Se assim testemunhamos  num pavilhão, noutro, de tasquinhas e petiscos e numa área de restauração ao ar livre, nebulizadores tentavam refrescar os visitantes. Pena não protegessem os alimentos. De onde vem  aquela água, será potável, é bom para os pastéis de tentúgal levar com aqueles borrifos por cima sem protecção? Mas adiante...
Vimos as máquinas e tractores de última geração, sendo que é preciso levar uma dose de paciência extra para o mais pequeno subir a (quase) todos, tal é o fascínio.


Sentimos o cheiro da terra e do maneio dos animais, da vida no campo ... feliz, mas dura, muito dura.


Pena o cartaz este ano não ser tão apelativo como em anos anteriores... Pouco entusiasmo em frente aos palcos, onde o mestre da casa, David Antunes, acaba por ser (novamente) rei. Nem sei se dia 13, com a repetição do Anselmo Ralph (porquê outra vez, senhores, porquê?) , não fugirão todos para o segundo palco para o ouvirem a ele novamente.
E depois  há as largadas. Quem é do Ribatejo tende a perceber melhor esta coisa dos toiros, o que leva as pessoas a estarem ali a ver outros (semi)corajosos a correrem atrás deles. Confesso que tenho sentimentos confusos em relação a esta problemática (hiiiiiii, que cliché!!!!). Sou contra a tortura dos animais, mas culturalmente fui criada neste meio e consigo perceber como, quando assim é, relevamos o mal que faz, pela satisfação (mórbida, dirão alguns) que trás. E mais não digo para não ferir susceptibilidades.


Gosto da Feira, gosto de aprender na feira, gosto do banho da multidão, gosto do balão de silly season que nos dá. E os filhotes já sentem o mesmo... É um evento anual a não faltar... Fala o sangue ribatejano na guelra...

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Meu amor




Cada um tem o seu. Cada um lhe dedica o que pode, consegue ou quer.
O meu, conheço-lhe o brilho nos olhos da alegria, ou o cansaço em dias difíceis. Conheço-lhe as interrogações da mente, mesmo sem as verbalizar. Acabamos as frases um do outro quando, sem falar, já estávamos a falar da mesma coisa. Zangamos e corrigimos.
E rimos... juntos, de tudo e de nada, de parvoíces e de coisas sérias, conhecendo o humor próprio de uma vida em conjunto.
Conheço-lhe a pele ao milímetro, o cheiro que me conforta a alma e o corpo.
Revejo-o no sorriso matreiro do pequeno, nas reacções da mais velha.
Amor de uma vida inteira e cheia.
Obrigada.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Onde estás, criança?




E quando nos apercebemos, já a fechamos a cadeado, por baixo de uma escada, sem direito a falar, para não ficar mal. Já a silenciámos para a vida, porque nos embaraça e nos torna reprováveis aos olhos dos outros. 
A criança definha, dia após dia em que não a deixamos transparecer no nosso olhar, nas nossas palavras e no nosso olhar. Perde o cabelo luzidío mas rebelde, perde as nódoas negras da brincadeira e as maçãs rosadas da corrida libertadora e das gargalhadas incontroláveis.

Se ao menos um pouco da sua ternura viesse à tona da pele todos os dias, quão mais feliz seríamos...
Não há nada que nos encha mais o coração do que o seu sorriso e o seu carinho! Há que libertá-la!!!

Onde estás, criança?


Foto: http://fanficsunderthestairs.tumblr.com/

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O vestido de Joana e Maria - Conta lá tu o fim



(Nota: Desafio de A Limonada da Vidal aceite por Para além da paisagem para dar um fim a esta história)


No seu quarto Joana angustiava,
 – como é possível? Ainda há 2 semanas experimentei o vestido e estava tudo bem! Isto tem de resultar, vou experimentar o corpete que o Francisco me ofereceu no dia dos namorados. Se eu apertar estas banhas o vestido servirá na certa! Oh não! O fecho não passa daqui e o casamento é daqui a duas horas. Mãe! Mãe, anda cá, por favor! Preciso da tua ajuda. O vestido não me serve. Maldita dieta do limão!
(chega a mãe)
 - Então, ainda não te maquilhaste?
- Mãe, por favor, não me pressiones mais ainda! Preciso de caber dentro deste vestido, dê por onde der! Liga à tua costureira Maria, e ela que venha cá em dois passos.
(chega a costureira)
- Ó menina Joana, isto não tem solução, eu não tenho tecido para lhe fazer o acrescento. Essa barriga está enorme, o fecho não passa da cintura. Tem a certeza de que não estará grávida?".

(Um , dois, três, agora escrevi eu:)

“Não, não podia ser” – pensava Joana. Decerto que, se dissesse às pessoas naquele quarto,  que tinha feito um voto de castidade até ao casamento, ninguém entenderia. Até Francisco, quando ela lho sugeriu, franziu o sobrolho. Mas ele entendeu, e até se animou com a ideia, enfim, dizendo que assim teriam tempo para se preparar, para se entregarem por completo um ao outro.
Mas Joana não tinha sido fiel. A si mesma, sobretudo. Os pensamentos pecaminosos assolavam-lhe as noites quentes, em que não conseguia dormir. Pensava naquele homem alto, cabelo desalinhado, suor a escorrer do rosto enquanto desbravava minis no café da esquina. Olhava-a quando passava apressada com os preparativos do seu casamento. Ela sentia-se observada…e adorava! À noite, pensava nas suas mãos calejadas e como seria senti-las a percorrer cada centímetro do seu corpo, ávido de prazer.
Para afastar esses pensamentos, Joana abria todos os dias a última gaveta da sua mesa-de-cabeceira e retirava barras de chocolate que devorava como quem devora um comprimido, esperando que faça efeito rápido. Para que a sua mente se acalmasse.
“Teria sido isto que me fez engordar em duas semanas?” – pensou.
“Saiam todas… Deixem-me sozinha, vou caber nesse vestido mas deixem-me tentar sozinha!”
A mãe respeitou, mesmo sem entender. Maria também saiu e foi-se embora, fechando a porta da rua calmamente atrás de si. Suspirou e sentiu-se aliviada. Com certeza que Joana não caberia no vestido. Os dois centímetros que retirara propositadamente ao vestido não o permitiriam. Assim, Maria poderia afagar o cabelo de Francisco mais uma noite. Mais uma noite de castidade em que Francisco se preparava para o casamento com Joana, enrolado nos lençóis de Maria. Duplamente se sentia Maria aliviada, pensando: “ Bem feita, ninguém te mandou invejar o meu homem, quando ele está no café a beber as suas cervejas e te olha de cima abaixo….”

No quarto, Joana desistia. De tudo. Abriu a gaveta e comeu o último chocolate.

sábado, 23 de maio de 2015

O Meu Furacão


Vieste com a força de um furacão, contagias-nos todos os dias coma tua energia desmedida, que nos deixa exaustos, por vezes, é verdade! 
Com toda essa alegria de viver, o teu sorriso contagiante, a tua garra em fazer, estar disponível para ajudar, até cair para o lado... abanaste a nossa vida! E para muito melhor!
Até para nascer foste impetuoso!
Obrigada por fazeres parte da minha vida! 
Agradeço a Deus os filhos que me deu, hoje em especial a ti... Vasco, o meu furacão!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Como visitar Paris em 1 dia e meio...

Depois de dois dias na Disney, apanhámos o RER com destino a Paris. É claro que, antes, já tínhamos estudado as ligações ao metro e a localização do nosso hotel. Mas antes de caminhar para a linha correcta, lá perguntámos mais uma vez à senhora que nos vendeu os bilhetes ( cerca de 20 e poucos euros) que caminho tomar quando chegássemos à capital do mundo. 
E foi uma viagem tranquila, de cerca de 50 minutos. Mais uma ligação de metro e aí estávamos, perto do Residhome Paris. Muito agradável o hotel, o quarto com dois pisos ( com cama em cima e em baixo), limpeza impecável, comodidades para podermos fazer refeições ligeiras. Os prestáveis recepcionistas logo nos deram as melhores indicações, mas não era difícil, já que tivemos a ajuda de um primo ali emigrado e integrado na vida parisiense. Como o dia continuava chuvoso, e tendo mais uma vez em conta o facto que nos deslocávamos com dois pequenos, não quisemos sobrecarregar o dia. Escolhemos visitar o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel. Sem subir, que este pessoal não é dado a alturas!


É, de facto, majestoso, chegar ao centro do mundo àquela avenida dos Campos Elísios (já tinha esta sensação das minhas visitas anteriores) e ver a grandeza do Arco, como se impõe para Norte e Sul, numa das artérias mais conhecidas... Faz-nos sentir importantes (porque estamos ali)e pequenos (porque percebemos a nossa insignificância) ao mesmo tempo.
Acabámos por partir à aventura, apanhando uma tricicleta para nos levar até à torre Eiffel. Foi muito divertido fazer a rotunda do Arco desta forma, vendo os carros a aproximarem-se em grande velocidade mas respeitando tão nobre meio de transporte. Grande momento.

Chegados à Torre, percorremos todo o Champ de Mars e tirámos todas as fotos pirosas e expectáveis possíveis.
É curioso ver como reagem os mais novos a estes momentos, sem se aperceberem da sua real importância, sobretudo porque transformadores.
Acabámos por, ao fim da tarde, lanchar já perto do hotel e descansar porque a isso o corpo obriga.
Convencidos que no dia seguinte faríamos umas comprinhas (estávamos a 50 metros do Printemps e a pouco mais das Galerias Lafayette), esquecemos que ao domingo, só mais a zona dos Campos Elísios mantém o comércio aberto. Comecei a suspeitar que as lojas não abririam quando, da janela do quarto, verifiquei que os sem abrigo, não estavam preocupados em levantar o 'quarto' mesmo chegada a hora normal de abertura do comércio.


Seguindo para o Plano A, apanhámos, perto da Ópera, o Bus Hop On Hop Off, para uma visita guiada (por auscultadores) pelas pontos mais significativos da cidade e que demora cerca de 2 horas a fazer todo o percurso. Para quem não tem muito tempo, revela-se uma boa opção dando uma visão geral da cidade e aspectos curiosos da sua construção.
Por exemplo, cada vez que se pinta a Torre Eiffel, gastam-se 60 toneladas de tinta. A intenção era destruí-la depois da exposição mundial de 1889 mas acabou por vingar pela sua imponência, sendo considerado o maior símbolo da nação francesa.





Já o metro, por exemplo, é o mais denso do mundo e foi construído tendo sempre em conta o alinhamento das artérias à superfície, o que em alguns casos levou a expropriações de custo elevadíssimo. De qualquer modo, em qualquer ponto que nos encontremos, estamos sempre a menos de 500 metros de uma estação, que pode ser de uma linha a poucos metros da superfície ou a largas dezenas de profundidade.

Malas feitas, viagem para o aeroporto e algumas horas de espera para apanhar o avião de regresso à normalidade que nos é tão familiar.


O que se vê num dia e meio em Paris? Muito pouco, quase nada. Mas o que fizemos, aproveitámos bem. Serviu, sobretudo, para enriquecer estas mentes (sobretudo a de 11 anos, mais madura) e agudizar o interesse para novas visitas, com mais tempo e para desbravar muito mais.
A impressão que fica é a de uma imensa cidade de pedra ( digamos que, se quiserem abrir um negócio de venda de tinta exterior, esqueçam...não tem saída!), cinzenta ( o tempo também lançou o tom), que é imperativo conhecer.
Até já Paris...




quarta-feira, 13 de maio de 2015

Desta indignação que nos move...




É simplesmente asqueroso o vídeo que hoje circula viralmente pelas redes sociais.
Esta indignação que nos moveu e move a todos com múltiplas partilhas e recriminações por acto tão estúpido quanto brutal explica-se pela proximidade que nos toca. Muitos pais de adolescentes e pré-adolescentes vêem um dos seus maiores pesadelos tornado realidade em míseros 13 minutos de angústia: os seus filhos transformados em coisas horrendas, desumanas, frias e manipuladoras, passivas perante violência arbitrária. Só porque sim.
Nos noticiários do almoço discutia-se qual o motivo das agressões. Mas QUE MOTIVO? Pergunto-me onde aconteceu o click que os tornou assim, a primeira conversa que tiveram sobre o assunto, assumindo que seria razoável, cool fazer tais acções?... Ou aquilo foi impulso do momento? E um impulso torna-nos assim, animais?

Não consigo compreender onde é que pode falhar a ligação pai-filho para provocar tamanha atrocidade... Todos sabemos que os nossos filhos se comportam de forma diferente quando não estão ao pé de nós... Mas esta delinquência choca por essa proximidade, de tão real quanto assustadora (possível?).
Agora virão os psicólogos e pedagogos dizer de sua justiça, quanto ao castigo adequado.
A vida toda, chega?!


Como e onde procurar ajuda?
Devo Denunciar?